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  • Kayo Vilche

Live no Instagram com PJ Kaiowá e um dos seus mais recentes trabalhos, “Eu sou Lume”.

O debate que rolou no sábado (13), foi mediado por Thito Campos juntamente com o Péricles Junior, mais conhecido como PJ Kaiowá, artista visual, ilustrador e diretor de arte que já teve seus desenhos publicados pela Dark Horse Comics, Titan Comics e até editoras como Capcom e Warner distribuídos em uma carreira de quase 20 anos.


A live aconteceu pelo Instagram (@prateleiradequadrinhos) e abordou a obra autoral entitulada “Eu sou Lume”, um dos mais recentes trabalhos do artista que foi lançado na CCXP de 2019. A história conta o dia a dia de Ludmilla, uma garota maravilha, nascida e criada no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, onde ela enfrenta diversos problemas na região aonde mora e por estudar em uma escola de elite sendo moradora da periferia.

Imagem 1 – Ludmilla, personagem principal da obra, em segundo plano, sua identidade secreta, Lume.


A princípio, PJ conta um pouco como se dá o processo de criação das suas artes e histórias: quadrinização, cenas e maneiras de pensar construção de narrativa e imagem que podem ser previstas nos storyboards ou durante o processo de criação.


A primeira reflexão ocorreu através da pergunta realizada na live: “De onde surgiu a ideia de colocar uma representante mulher, preta, ‘zika’ e como se dá o processo de transferência para algo independente?”. PJ menciona a dificuldade de vermos as histórias sendo realmente protagonizada por mulheres, sem vínculo com equipes, com o seu próprio nome e imagem na capa. “É isso que está ao meu redor, é isso que eu vejo todo dia, é isso que consta na minha realidade. Pô, uma menina preta tem que se vestir de uma outra coisa pra se sentir forte, poderosa e tal...” disse Kaiowá sobre o fato de ter se inspirado em fazer uma protagonista mulher e negra para sua obra. A figura da mulher negra sempre vai ser vinculada a uma imagem sofredora e no meio da desigualdade, e, “Eu sou Lume” quebra esse estereótipo ao mesmo tempo que não foge daquele ambiente proposto, provocando assim empatia e representatividade. É sobre apresentar uma nova perspectiva, é contar a história na narrativa de quem sofre com isso no dia-a-dia, na pele, conclui PJ.


Thito e PJ continuaram a Live partindo da sensação e linguagem que a obra propõe ao abordar assuntos como o racismo e a vivência na periferia. Kaiowá menciona as referências que aparecem no seu cotidiano e que ele toma como inspiração para a história, sejam notícias sobre o assassinato de pessoas negras, como por exemplo a vereadora Marielle Franco, ou as políticas públicas que interferem diretamente na sua vivência e da sua comunidade. Ele leva todas essas vertentes para a narrativa, principalmente a ideia de modificação da história original, e de como a uma distorção proposital de fatos sempre favorece uma classe e uma raça especifica.

Imagem 2 – Trecho da obra “Eu sou Lume” aonde Marielle Franco, vereadora assassinada em 14 de Março de 2018, discursa contra a esterilização proposital que ocorre na história.

A história de Lume começa com uma ação do estado contra a periferia, que não é algo totalmente fictício, e o apagamento da história e registros de origens africanas e indígenas. Esse ponto de partida pode ser compreendido nos dias atuais quando percebemos “quem são”, “quantos ocupam”, e “onde estão” a população afro e indígena.


Por que não temos livros, obras e quadrinhos que falam sobre essas origens? Quem conta a história é quem está certo?


Assim como Miles Morales ou Kamala Khan, Lume vem dessa nova onda de personagens jovens e de classes menos abastardas, que comete erros e que nós aprendemos junto com a personagem ao longo da história. A genialidade alcança seu objetivo quando PJ menciona as meninas que leram a obra, e se identificaram com a personagem principal e mandam mensagens de agradecimentos ao autor.


PJ encaminha a live provocando eventos e espaços que promovem (ou não) os artistas negros e a importância de representatividade sendo autor. Menciona também sobre a dificuldade de achar pessoas como ele dentro dos processos editoriais e o quanto foi difícil construir e se mostrar apto a produzir: “Temos que ter consciência de que não estamos construindo esse caminho para nós, e sim para daqui 30, 40 anos...” diz quando reflete sobre o processo de criar um caminho livre do racismo, fascismo e opressão.

Imagem 3 – Ludmilla, personagem principal da obra, em ação.

Por fim, “Eu sou Lume” não é uma simples obra. A sua finalidade é para além de uma boa história (e coloca boa nisso), é alcançar um espaço de representação, onde todas as meninas negras e periféricas possam ter alguém para se espelhar.


“Eu sou Lume” é sobre ser forte em meio ao caos político-social.

É sobre estar vivo em meio ao genocídio de um povo.

É sobre dar voz a Marielle Franco, George Floyd, João Pedro e tantos outros que foram silenciados.

É sobre contar e construir a verdadeira história, de alguém que vive na pele o que é ser negro.


Obrigado PJ Kaiowá.

Obrigado.


Quer conhecer mais sobre "Eu sou Lume" ou outras obras do PJ Kaiowá?

Acesse: https://www.pjdraw.com/