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  • Lali Xavier

Live no Instagram do Prateleira com Aline Akimoto sobre o quadrinho “A Gigantesca Barba do Mal”

Na live do dia seis de junho, a nossa querida Ana Cris, integrante do Prateleira, pôde conversar com a psicóloga Aline Akimoto, com experiência em educação escolar atendendo possíveis dificuldades escolares e também é especializada na abordagem Terapia Cognitivo Comportamental (também conhecida como TCC) e a partir dessa especialização foi possível iniciar o atendimento de adultos também e outras questões.

O debate teve como foco a HQ A Gigantesca Barba do Mal, escrita por Stephen Collins. A narrativa é iniciada pela apresentação de uma ilha chamada Aqui que rodeada por mar e mais distante por . É uma história complexa, reflexiva e que possui muita subjetividade. E por tornar o debate muito denso por ser uma obra abrangente no sentido de contexto e interpretação. No Aqui tudo é perfeito e harmônico. Enquanto no não se sabe nem há busca de saber o que existe neste outro lugar, mas compreende-se que o é ruim e por isso não deve ser buscado.

O personagem principal dessa história é o Dave, que era mais uma pessoa “adequada” desse lugar. No entanto ele possui uma peculiaridade: um fio da barba. Vivia sozinho a beira-mar, onde as casas ficam de costas para o mar, pois é onde leva para o e Lá, as pessoas que foram não voltaram. Dave tinha como passatempo, principalmente desenhar, gostava muito de desenhar sua rua, por esta ser “completa”. Tudo na sua rotina é igual e repetitivo como todos que vivem Aqui.


Quadro de A Gigantesca Barba do Mal, obra do quadrinista norte-americano Stephen Collins, publicada no Brasil pela editora Nemo

Mas um dia, de um modo peculiar, ele tenta esconder os pensamentos que tem sobre , mas em algum momento não há mais como esconder. E a partir disso os pelos de sua barba começaram a crescer. E começa a crescer de modo excessivo e muito rápido. E essa barba, por seu crescimento, não muda apenas para Dave, mas para todos. As pessoas começam a precisar mudar seu caminho, entre outras coisas que acabam tornando o personagem quase como uma atração da ilha.

Aline compartilhou suas impressões da obra, iniciando pelos "insights" que apenas uma resenha conseguiu despertar nela. A primeira interpretação possível, como psicóloga, seria de que o Aqui poderia ser uma representação do eu, enquanto o Lá como metáfora do outro. Entender a si mesmo como algo “bem resolvido”, enquanto o outro é algo que precisa ser um problema, isto é, o outro ser o problema. O que nos ajuda a compreender que o problema talvez esteja em si também e não só no outro.

Durante a conversa foi possível traçar uma conexão com O Mito da Caverna de Platão, pois trata-se de narrativa em que as pessoas acorrentadas viam as sombras e compreendiam que o mundo fora da caverna fosse essa representação das sombras, depois ocorre de uma pessoa ser desacorrentada e vê que o mundo fora da Caverna é mais do que parece, e quando tenta passar sua percepção para outros é ignorada, pois quem vive dentro da caverna não entende algo que nunca viu. E não percebe qualquer possibilidade que fuja da sua compreensão e vivência.

Então a percepção inicial é que a obra remete a uma analogia do processo de terapia, desde do seu roteiro e até mesmo em sua visualidade. A representação de uma ordem, esta que é milimetricamente estabelecida, onde não há caos, que não há questionamentos. Aline utiliza do trabalho do Dave como exemplo, onde ninguém entendia o que o outro fazia, como a divisão desse trabalho aliena os trabalhadores a ponto de eles não entenderem o porquê fazem algo e o que o outro colega de trabalho faz, fazendo uma referência a Karl Marx aqui.

Ela ainda pôde comentar quão comum é em sua experiência de atendimento filhos, cônjuges e o distanciamento que existe entre o conhecimento que temos sobre o que o outro faz. Ao mencionar isso a Aline, lembra que a obra pode ser comparada com a realidade brasileira ainda que tenha sido escrita por um autor estrangeiro.


Quadro de A Gigantesca Barba do Mal, publicada no Brasil pela editora Nemo.

Ana trouxe a reflexão o quão importante ter contato com uma leitura de quadrinhos que suscite tantas elucubrações sobre percepções e sentimentos internos dos quais nunca damos muita importância. Citando uma resenha da qual Freud foi norteador de análises, para refletir do quanto das nossas vidas possui influência do nosso consciente e inconsciente.

Segundo Aline, é muito importante perceber que o modo que falamos e agimos está conectado do que há de mais profundo na nossa personalidade. Aline pôde comentar como é comum as pessoas iniciarem o processo de terapêutico a partir do sentimento de algo que está escondido dentro de si mesmos. E explicar como o conceito de ato falho e o sonho, para a psicanálise, podem ser manifestações do inconsciente.

A barba na narrativa então seria a representação desse sentimento oculto e/ou inconsciente que a pele acaba deixando escapar, e ao ser expelida acaba abrindo para outras questões serem despertadas e discutidas.

A história também utiliza do termo entropia, que no conceito da física é uma grandeza que mede o grau de desordem de um sistema, mas também há entropia psíquica que é a incapacidade de usar a atenção de forma adequada porque você está permeado de sentimentos negativos. Porque isso é o que ocorre na HQ, pois há esse movimento de paralisação, onde todo mundo demoniza Dave, porque ele era o transgressor das regras do lugar. E demonstrando como as pessoas não sabem lidar com sentimentos negativos e acabam paralisados por essas sensações.

É possível fazer uma conexão com a política higienista latente existente no nosso contexto atual da pandemia. Muitos atos que foram demonizados foram depois internalizados para serem realizados e aceitos. Esse comportamento é muito comum e é visto no processo terapêutico. Um exemplo de como existem regras que são construídas socialmente, presentes no nosso convívio familiar e comum. E é no processo de amadurecimento quando encaramos e revisamos essas regras, principalmente durante a adolescência, para entender o que faz parte de nós quanto individuo ou não.

A nossa convidada fez um paralelo entre a narrativa e o contexto atual de pandemia para recordar que não existe uma regra do que é certo quando trata-se de um modo de viver, que pode haver beleza no caos. E utilizou como exemplo, como cada pessoa possui um horário de funcionamento interno do qual se sente mais ativo e melhor realizando atividades, do qual pode seguir ou não uma tradição do qual foi habituado (antes da quarentena ou não).

A Aline pôde falar como essa experiência foi incomum na rotina atual dela, pois ler quadrinhos se tornou algo cada vez menos comum com o decorrer do anos, pois há um consenso de como há um entendimento generalizado de quadrinhos como uma mídia infanto-juvenil.

No entanto, esta e muitas outras obras gráficas existem para provar que essa linguagem é muito potente e também um formato muito democrático, vide como exemplo a importância do projeto Prateleira de Quadrinhos que utiliza de quadrinhos para abordar temas tão importantes.

Ana completou sobre como a leitura de quadrinhos pode ser reflexiva e profunda. E com leitura de HQs desse tipo puderam fazer ela perceber como ela gosta de leituras mais densas e provocativas.

Tanto Ana quanto Aline reforçaram a importância da trilha sonora que acompanha a história e torna a narrativa ainda mais imersiva, por conduzir o leitor para dentro desse mundo e dessa história tão interessante.

Pode ser feito uma paralelo da obra com pessoas que não se encaixam nos padrões da sociedade, pois a barba de Dave é uma representação de algo assim. Apenas o “normal” é aceito na nossa sociedade, e o questionamento que pode ser iniciado é quem define o que é normal e por que é ruim estar fora deste normal? Vivendo em uma sociedade capitalista é importante notar que a normalidade é guiada por um sistema que preza mais por resultados do que processos, enquanto pessoas vivem permeadas de processos graduais.

E tudo o que é julgado por nós aponta para algo que não está bem resolvido dentro de nós mesmos. Essa é uma questão importante para entender muito sobre nós e como lidamos/entendemos o outro. E a terapia é o caminho para entender esses sentimentos essas coisas além do que é conscientemente. Sempre usando a percepção para entender e então nomear, para então conseguir adequar e organizar seus comportamentos.

É essencial entender como a família é um grupo de pessoas que possuem subjetividades que sempre vão tendenciar a ter conflitos, exatamente por construírem uma diversidade entre si dentro de um espaço. E a compreensão nos faz conceber que existem mais de uma forma de viver e realizar as coisas.

Essa obra já virou uma das possíveis indicações de Aline em suas sessões de terapia. Ela lembra que algo sempre será interpretado de acordo com a vivência de cada. Mas que a obra pode desencadear reflexões em torno de coisas como: tentar naturalizar o que as pessoas não entendem como natural; como instintos sobressaem as regras construídas; respeitar processos; questões sempre vão surgir, mas o que determina é como as pessoas lidam com estas questões.


Quadro de A Gigantesca Barba do Mal, obra do quadrinista norte-americano Stephen Collins, publicada no Brasil pela editora Nemo

O autoconhecimento é essencial para viver de uma maneira mais plena. Compreender a nossa subjetividade faz com que vivemos de um modo mais harmônico com as pessoas e como o mundo a nossa volta. E mudar o que nos incomoda torna-se algo mais simples. Entender nossas convicções faz agirmos com mais naturalidade sobre nossas ações e pensamentos.

A pandemia foi um contexto que pode nos fazer assimilar novas formas de viver e compreender que temos que viver de modo que não seguem os modelos, expectativas que não deviam necessariamente existir.

Essa live foi muito interessante, produtiva e interativa (houve inúmeras perguntas e comentários), acho importante salientar isso, para relembrar quem chegou até que ver as lives do Prateleira de Quadrinhos é sempre muito divertido. A conversa foi muito proveitosa, a conclusão é que o debate trouxe é de que precisamos ser fiéis a nós mesmos e entender que não temos controle sobre as coisas, que a vida não possui linearidade. E a partir disso, citando a Aline “lidar com o que podemos e levar para terapia o que não conseguimos”, até porque terapia é essencial.