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  • Lali Xavier

Live no Instagram sobre "O poder, a luta e o ser mulher na sociedade atual" com Luana Almeida


A conversa que rolou no sábado (6 de junho) foi sobre a luta das mulheres na sociedade atual, foi mediada pela nossa querida Ana Cristina Gomes, professora de educação artística e integrante do nosso projeto. E esse diálogo teve a colaboração da Luana Almeida, artista visual e produtora cultural de 24 anos que está envolvida em projetos musicais independentes, moradora da Jardim Pantanal, na região de São Miguel Paulista, extremo leste de São Paulo.

Esse bate-papo que rolou pelo Instagram, usou como base para a discussão a história em quadrinhos Desconstruindo Una (2016), sendo essa história vivida pela personagem autobiográfica (ainda que a autora tenha utilizado de relatos de outras mulheres para construir a narrativa), e por isso retrata a violência de gênero através de relatos subjetivos de quem viveu isso, o que torna a experiência de quem lê mais intensa. Além disso, Una, a autora do livro, utilizou de algo que aconteceu no final dos anos 1970, especificamente no condado de Yorkshire e durou anos, o surgimento de um serial killer chamado Peter Sutcliffe, que ficou conhecido como o Estripador de Yorkshire, isto é, a narrativa possui fatos históricos que a permeiam.

Outro aspecto interessante que a novela gráfica possui é utilizar-se de discursos questionáveis que as mídias da época expressavam sobre o caso. Discursos esses que também representavam o modo de ver de boa parte da sociedade sobre casos que envolviam violência contra mulheres, buscando sempre justificar a violência com algum tipo de comportamento do qual as pessoas poderiam condenar e compreender como criticáveis.

O que recai sobre algo que movimentos sociais chamam de culpabilização da vítima, como foi abordado na live. As mulheres não são somente desacreditadas quando denunciam agressões e violências, mas também são culpabilizadas. Inclusive se há interesse no tema recomendo a série da Netflix chamada Inacreditável (2019), do qual aborda esse aspecto de modo relevante, mas é importante lembrar que a obra é recomendada para maiores de 16 anos por conter linguagem e enredo mais impactante.

Por ser citado o Estripador de Yorkshire presente na HQ, Luana recordou sobre o caso do Jack, o Estripador, que inspirou a nomeação do assassino de Yorkshire. Luana utilizou disso para nos lembrarmos da importância do cuidado com os nossos discursos e como a empatia é importante na construção da luta por um mundo com mais equidade.

O que também pôde introduzir a importância de perceber como esses assuntos que envolvem equidade na nossa sociedade não são novos (apesar de estarem alcançando mais relevância social atualmente), mas que sempre existiram pessoas que lutaram por isso. E quando é feito um discurso que coloca como o “surgimento” desses movimentos apagam a história de militâncias e pessoas extremamente importantes historicamente.

E quando há um discurso do tipo “pra quê…?” para qualquer ação social que não entendida é necessário pesquisar o contexto antes mesmo de pensar em críticas, pois ações sociais possuem uma base de pesquisas, e se criaram essa mobilização é porque há pessoas necessitando disso. É importante também reconhecer como ter esse tipo de fala alimenta o discurso de descrédito nos testemunhos de vítimas, e isso de uma forma ou de outra resulta no descaso das autoridades sobre os casos.

Luana trouxe também o relato sobre ver uma das integrantes da dupla Tasha e Tracie em uma live discutir a sexualização precoce de meninas negras e como se diferencia da infância da meninas brancas, ainda que ambas sejam sexualizadas é de forma diferente que ocorre, e como sempre em nossa sociedade as crianças negras sofrem mais infelizmente, e isso ocorre principalmente pela forma como a sociedade olha corpos femininos independente da idade. Além disso, existe a questão de que as formas de violências sofridas por garotas mudam de acordo com a idade, o que demonstra como há distinções nas opressões não apenas no que diz respeito à raça, mas também à faixa etária.


Quadro de Desconstruindo Una, obra da quadrinista inglesa Una Publicada no Brasil pela editora Nemo

Aliás, indo um pouco mais adiante sobre essa questão do olhar sob corpos femininos é válido duas recomendações para quem tem interesse em se aprofundar mais no assunto, vou indicar primeiro aqui um vídeo do YouTube do Canal Mimimidias que comenta e faz análises sobre alguns aspectos da série Love, Death & Robots da Netflix (lembrando que esta série é recomendada para maiores de 18 anos), e usa como base alguns textos acadêmicos muito importantes para a discussão do tema. Autores como Bell Hooks, John Berger, Laura Mulvey, que são teóricas respeitáveis, são utilizadas para analisar e refletir sobre tais elementos em obras visuais das quais consumimos.

Clara Matheus explicando sobre as formas que os corpos femininos aparecem em obras cinematográficas. 

A segunda recomendação é para quem realmente quer entender mais profundamente e está disposto a ler sobre, que é um dos textos que a Clara Matheus, que apresenta o vídeo, cita por último: o texto Prazer Visual e Cinema Narrativo da crítica de cinema Laura Mulvey, pois ainda que seja um texto que propõe analisar filmes, séries e narrativas cinematográficas de qualquer tipos, pode ser usado para refletir sobre qualquer obra de arte visual, isto é, fotos, pinturas, desenhos, gravuras e até mesmo histórias em quadrinhos (por que não?).

É significativo abordar essa questão, pois depois de repensarmos como quem faz uma obra tem influência em como é retratado algo podemos pensar porque é tão importante a existência de uma obra como a de Una, visto que ela é mulher que vivenciou os assuntos abordados por ela. E por isso é importante pensarmos ao tratar desse assunto porque devemos priorizar autoras mulheres de histórias em quadrinhos, ainda mais quando estamos falando de assuntos que envolvem ser mulher.

Um outro aspecto que foi discutido por Ana e Luana sobre a violência de gênero foi como os casos de violência que são cometidos em sua maioria por pessoas próximas, com quem as vítimas tiverem ou mantém algum tipo de relação. O que suscitou o contexto de quarentena do qual estamos vivendo, onde houve um aumento de mais de 50% dos casos de violência doméstica. E Ana pode compartilhar a recém descoberta da existência do site Relógios da Violência, um site realizado que registra as informações e os números referenciados por uma pesquisa realizada pelo Datafolha encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública no ano de 2017 em 130 municípios, incluindo capitais e cidades do interior, em todas regiões do Brasil sobre a violência contra a mulher.

A partir disso, elas, Luana e Ana, puderam falar sobre como isso é ainda mais problemático para mulheres pobres e negras, trazendo a observação de como os aspectos são mais complexos de acordo com a parte da sociedade da qual a pessoa que sofreu a violência está inserida, em outras palavras, raça/etnia (sendo este o principal), classe, orientação sexual, geração, região, religião, entre outros aspectos sociais norteiam como você é tratado na sociedade. E por isso entender a posição do discurso de quem fala é essencial. Coisas que podemos aprender com o feminismo negro e com a interseccionalidade que existe na luta por igualdade, e como diz a youtuber Neggata é sobre “a diferença dentro da diferença”. E é muito importante pontuar a importância do feminismo ser uma pauta abarca todos os tipos de mulheres que existem (brancas, negras, cis, trans, heterossexuais, lésbicas, deficientes, etc).



Tradução livre: Se seu feminismo exclui mulheres trans e mulheres pretas, seu feminismo é besteira.

Ana e Luana ainda puderam discutir a polarização que existe politicamente nos tempos atuais e como a periferia entra nesse assunto, uma reflexão importante. E também foi falado sobre como há um movimento antirracista crescente no contexto atual antifascista que tende a ser raso, porque é muito discursivo, mas não há pesquisa sobre os assuntos devidamente, consideração sobre as vozes e as experiências de pessoas pretas, de ter atitudes, além das pessoas pretas que você admira (se que é admira pessoas pretas…).

E ainda há minimização e desconsideração das opressões das quais pessoas que fazem parte das chamadas minorias sociais sofrem sejam por serem mulheres, trans, pretas, deficientes, etc. Estamos em 2020, e não há apenas desigualdades vivenciadas por pessoas todos os dias, mas também as pessoas desmerecem essas violências por mais gigantescas que elas possam ser.

Ainda houveram perguntas como qual é o posicionamento de ambas sobre o ato que seria realizado no dia seguinte (7 de junho de 2020), um ato antirracista e antifascista realizado por movimentos sociais de esquerda, no entanto também realizado durante uma pandemia de Covid-19. Luana salientou sobre ser um perigo para pessoas periféricas dado contexto de como a doença possui mortalidade maior entre pessoas de classes mais baixas e negras. E embora a causa seja extremamente relevante é necessário pensarmos com cuidado sobre as estratégias de combate ao racismo e ao fascismo. Aliás, Luana pôde comentar um pouco sobre sua matéria onde ela fala sobre ter tido Covid-19 que saiu na Revista Piauí.

Elas foram elogiadas no fim da live e apontaram sobre elogios como mulheres serem denominadas “guerreiras” e como isso é problemático, dado que elas gostariam de viver em um mundo onde não há a necessidade de ser guerreira, esse assunto já foi falado inclusive no penúltimo debate presencial do Prateleira de Quadrinhos, que teve a participação da Glaucy Alexandre. E é possível lembrar do meme famoso no Twitter (inclusive vai seguir o @PrateleiraQ no Twitter) “descansa, militante”, o sonho de todo militante é descansar, mas as opressões não dão uma folga sequer (risos).

Depois de tantas reflexões que a live proporcionou, só pude chegar a conclusão de que a existência de mulheres como Luana, Ana e Una por si só já são exemplos de resistência, em razão do contexto que elas vivem, ainda que cada uma com sua subjetividade, e por isso é necessário que cada vez mais elas possam ter espaço e ser ouvidas para que as histórias de violência e desigualdade não se perpetuem.


Até a próxima :)